Eleito governador do Rio Grande do Sul no primeiro turno, Luciano Zucco (PL) assumirá o Palácio Piratini em 2027 diante de uma série de desafios nas áreas fiscal, climática, de segurança pública e saúde.
O novo governo terá pela frente um estado que ainda tenta se adaptar à frequência de eventos climáticos extremos, ao mesmo tempo em que enfrenta uma dívida com a União superior a R$ 100 bilhões, aumento dos feminicídios, superlotação do sistema prisional, filas na saúde e mudanças no perfil demográfico da população.
Enchentes e prevenção a desastres
As enchentes históricas de 2023 e 2024 mudaram a realidade do Rio Grande do Sul. Além das inundações, o estado passou a conviver com temporais, vendavais e outros eventos extremos com maior frequência.
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade também mantém o alerta para períodos de chuvas volumosas e novas inundações.
Um levantamento realizado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) após as enchentes de 2024 apontou dificuldades na estrutura de prevenção dos municípios. Dos 497 municípios gaúchos, 215 tinham planos de contingência desatualizados e 175 informaram não possuir estrutura adequada para ações de prevenção e resposta a desastres.
Dados do Serviço Geológico do Brasil indicam ainda que mais de 740 mil pessoas vivem em áreas suscetíveis a deslizamentos, enchentes e inundações.
Dívida pública e déficit bilionário
Na área econômica, o próximo governo encontrará um cenário de forte pressão sobre as contas públicas.
A projeção para 2027 aponta um déficit de R$ 4,8 bilhões, o que significa que as despesas previstas devem superar a arrecadação do estado.
A dívida com a União é um dos principais componentes desse cenário. Em 2025, o saldo chegou a R$ 106,5 bilhões. Em 2015, era de R$ 51,6 bilhões — mais que dobrou em uma década.
O orçamento também é pressionado pelas despesas com pessoal. Atualmente, cerca de 60% da receita estadual é destinada ao pagamento dos servidores públicos. O percentual, porém, já chegou a 79,6% em 2015.
Outro compromisso são os precatórios, dívidas decorrentes de decisões judiciais definitivas. O estoque chega a aproximadamente R$ 16 bilhões, enquanto os pagamentos anuais são estimados entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões.
Feminicídios e novos desafios na segurança
Apesar da redução de crimes como homicídios, roubos e latrocínios nos últimos anos, a segurança pública terá novos desafios.
Os feminicídios voltaram a crescer depois de atingirem o menor número da série histórica em 2024. Também houve aumento nas tentativas de feminicídio, enquanto a estrutura de proteção às mulheres ainda apresenta diferenças entre os municípios.
Outro problema são os crimes virtuais. Entre 2020 e 2025, a Polícia Civil encaminhou mais de 77 mil inquéritos de estelionato à Justiça. Em 70,5% dos casos, não houve indiciamento de suspeitos.
O sistema prisional também enfrenta pressão. A população carcerária passou de 50 mil presos em 2025 para aproximadamente 57 mil em 2026. Desde 2018, foram criadas 5.246 vagas, enquanto o número de presos aumentou em cerca de 17 mil.
Envelhecimento da população e distribuição de médicos
O envelhecimento da população será outro desafio para o próximo governo.
O número de pessoas com 60 anos ou mais praticamente dobrou em pouco mais de duas décadas e chegou a aproximadamente 2,2 milhões no estado. No mesmo período, a expectativa de vida passou de 72,8 para 77 anos. Entre as mulheres, chegou a 80,1 anos.
Na saúde, o Rio Grande do Sul possui 3,45 médicos para cada mil habitantes, acima da média nacional, de 3,08.
O principal problema, porém, está na distribuição desses profissionais. Em Porto Alegre, a proporção chega a 11,81 médicos por mil habitantes. No interior do estado, cai para 2,27.
Para o novo governo, o desafio será transformar a concentração de profissionais na capital em uma rede de atendimento mais equilibrada no interior, ao mesmo tempo em que administra o envelhecimento da população e a pressão sobre os serviços públicos.
Um governo diante de múltiplas pressões
A partir de 2027, Zucco terá de conciliar a recuperação e prevenção de novos desastres climáticos com o equilíbrio das contas públicas, o enfrentamento da violência contra as mulheres, a expansão do sistema prisional e a reorganização dos serviços de saúde.
O cenário combina problemas de curto prazo, como o déficit orçamentário e a prevenção contra novas enchentes, com questões estruturais, como a dívida pública, o envelhecimento populacional e a desigualdade na distribuição de médicos pelo estado.