Uma mãe e uma filha viveram uma experiência incomum durante a faculdade: além de compartilharem a vida em família, elas também foram colegas de turma. Aos 50 anos, Sandra Gewehr Scholles decidiu retomar um sonho que havia ficado para trás e ingressou no curso de Psicologia, em uma universidade de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
A filha, Daniela Gewehr Scholles, de 25 anos, já havia iniciado o mesmo curso em 2019. A decisão de Sandra de voltar à universidade fez com que as duas passassem a frequentar as mesmas aulas e enfrentassem juntas os desafios da graduação.
Depois de sete anos de estudos, trabalhos, estágio e mudanças provocadas pela pandemia, mãe e filha chegaram juntas ao momento mais esperado: a formatura. As duas receberam o diploma de Psicologia durante a mesma cerimônia, realizada em 25 de julho.
Sonho interrompido foi retomado
Sandra havia iniciado uma graduação em Pedagogia quando tinha aproximadamente 18 anos, mas acabou interrompendo o curso após perceber que aquela formação não correspondia às expectativas profissionais que tinha naquele momento.
Com o passar dos anos, vieram o casamento, os filhos e as responsabilidades familiares. O sonho de voltar a estudar, porém, permaneceu.
A oportunidade surgiu novamente quando Daniela foi aprovada no vestibular de Psicologia. Ao conversar com a mãe sobre a possibilidade de retomar os estudos, Sandra inicialmente acreditou que seria difícil, mas decidiu tentar.
Ela conseguiu retornar à universidade por meio do reingresso, aproveitando disciplinas cursadas anteriormente. Para tornar o projeto possível, contou também com o apoio da família.
Para Daniela, a iniciativa da mãe foi motivo de admiração.
"Fiz o vestibular e sabia que era algo que a mãe queria há mais tempo. Comentei sobre isso e, apesar de no começo ela achar que não iria funcionar, acabou aceitando", lembra a filha.
Daniela também destaca a importância de não abandonar os sonhos por causa da idade.
"Nunca é tarde para realizar sonhos", afirma.
Rotina entre trabalho, família e faculdade
Conciliar a graduação com as demais responsabilidades foi um dos principais desafios para Sandra. Além das aulas, ela precisava administrar o trabalho, o estágio, a família e as tarefas de casa.
Em determinado período, chegou a cursar cinco disciplinas simultaneamente. A quantidade de trabalhos e provas fez com que ela pensasse em desistir.
"Mais ou menos na metade da faculdade, eu fazia cinco cadeiras e foi bem difícil conseguir conciliar trabalhos e provas. Era muita coisa. Tinha épocas que eu pensava: 'Meu Deus, eu não vou dar conta'", conta.
O apoio da família foi importante para que ela continuasse. O marido, os filhos e Daniela ajudaram Sandra a superar os momentos mais difíceis.
Mãe e filha como colegas de turma
A convivência na universidade também aproximou ainda mais as duas. Durante a graduação, elas precisaram aprender a equilibrar a relação de mãe e filha com a de colegas de curso.
Em trabalhos e atividades acadêmicas, por exemplo, muitas vezes precisavam deixar de lado a relação familiar para atuar como parceiras de faculdade.
"Nos aproximamos mais e, por vezes, os papéis de mãe e colega se confundiam, mas fomos aprendendo a lidar com isso", explica Daniela.
Apesar da parceria, as duas tinham métodos de estudo diferentes. Sandra preferia imprimir artigos, fazer anotações e destacar os principais pontos dos textos. Daniela, por outro lado, utilizava mais recursos digitais, como o celular e resumos.
Até a forma de lidar com os prazos era diferente.
"Eu me preocupava muito com a questão dos prazos dos trabalhos para entregar, e essa geração da idade dela deixa tudo para a última hora, para o último minuto", brinca Sandra.
Formatura lado a lado
A trajetória acadêmica das duas também foi marcada pela pandemia de Covid-19. Em 2020, parte das atividades passou para o formato remoto, exigindo adaptações de estudantes e professores.
Mesmo diante das mudanças e das dificuldades, mãe e filha seguiram até o fim.
Em 25 de julho, as duas foram chamadas em sequência para receber o diploma de Psicologia.
Para Sandra, o momento representou a realização de um sonho que havia sido adiado por décadas.
"Foi a realização de um sonho", resume.
Daniela afirma que um dos momentos mais marcantes da cerimônia foi o abraço entre as duas.
"Acredito que foi quando nos abraçamos e realmente caiu a ficha de que tínhamos conseguido", conta.
A história de Sandra e Daniela terminou com duas formaturas, mas também deixou uma mensagem que acompanhou toda a trajetória: os planos podem ser retomados, independentemente da idade.